Daniel Danguy – “A limitação do autoconhecimento”

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Muito se fala hoje em dia em buscar ser uma pessoa melhor. O autoconhecimento tem sido alvo de pesquisas acadêmicas e está também no ranking das principais plataformas de busca.


Vejo que o processo de se autoconhecer é uma porta de entrada para o despertar de uma dimensão mais sutil: a nossa humanidade.


A autoconsciência serve, em grande parte, para nos tornarmos cientes da grande quantidade de desequilíbrio e incongruência baseados em apego, raiva e ignorância em nossas mentes. Fazemos algo e esperamos um resultado totalmente diferente.  Comemos alimentos gordurosos e reclamamos dos efeitos nocivos no corpo. Desejamos relacionamentos harmoniosos, mas boicotamos isso com uma enxurrada constante de críticas. Planejamos vinganças achando que isso irá aliviar a nossa frustração e a baixa autoestima.


Por isso, o autoconhecimento é de grande benefício. Ser uma pessoa melhor envolve uma lapidação que objetiva relacionamentos melhores consigo mesmo e com os outros.


Mas aqui, quero falar para aqueles que questionam se o processo de olhar para si é o nosso objetivo principal.


O fato é que quase sempre nossa mente está condicionada no autocentramento e pode confundir o autocuidado com o reforço da separatividade, se referindo a um eu aparentemente existente, como:


“Preciso pensar no meu eu”, “vou apenas cuidar de mim”, “tenho que lembrar de me colocar em primeiro lugar”.


Ok! Tudo isso é importante se você estava perdido em meio a expectativas sociais, sem reconhecer a sua faceta singular e isenta de rótulos e de deveres. E com certeza, o processo de olhar para si e ser a prioridade durante um tempo é fundamental para irmos para uma outra etapa:


A contribuição positiva com as pessoas e com o meio.


Eu gostaria de pedir para você parar um segundo para essa leitura e não ficar no automatismo tão comum que vivemos atualmente: pense sobre o desejo em comum entre todos os seres. Não permaneça lendo esse artigo sem questionar e refletir se isso faz algum sentido.

Todos nós desejamos uma vida melhor, relacionamentos verdadeiros, felicidade. Basta olharmos pela janela ou observarmos nossos familiares e colegas que percebemos muitos sinais de que não há sequer uma pessoa que não esteja buscando a felicidade.


Todos querem ser felizes. Desde a pessoa mais rica até a mais pobre. A criança, o jovem adulto e o idoso. Aqueles que se posicionam politicamente no mesmo lado que o nosso e os que são totalmente discordantes do nosso ponto de vista.


Você consegue enxergar?


Nesse momento, temos um vislumbre de que vivemos em uma bolha mental que sustenta a ideia de que somos os seres mais importantes do planeta. É aquela repetição do disco arranhado que fica atordoando as nossas mentes: “Eu, Eu, Eu.”


Mas todas as pessoas e os outros seres – eu poderia falar aqui até do reino animal, mas acho que esse é um tema para outro momento – pensam a mesma coisa. As pessoas em geral, pensam apenas em si baseadas num instinto de sobrevivência. “O que preciso fazer para ter mais dinheiro”, “O que eu vou comer”, “tenho vontade de mudar o mundo, as pessoas, de acordo com as minhas ideias do que é melhor para eles”. Tudo isso funcionou como um remendo e pode até dar a impressão de que contribuiu para a economia e para o desenvolvimento material. Mas lhe pergunto: As pessoas realmente estão felizes? Existe alguém plenamente satisfeito em sua vida?


Aqui chego no tema que eu mais gostaria de abordar nesse artigo. O poder da compaixão. Isso foi trazido de maneira bastante relevante por diversos filósofos e mestres espirituais. Buda Shakyamuni apontou para a importância da compaixão como o principal caminho para abrir as portas para a verdadeira felicidade. Esse também é um grande ensinamento de Jesus, o Cristo, mas que é muitas vezes colocado de lado com menor importância até hoje.


Chega um momento em que o autocentramento que se esconde na busca por uma vida melhor fica demasiadamente sufocante e se faz necessário começar a cultivar as qualidades positivas que beneficiam os outros seres. Enquanto o constante pensar em si é angustiante e gera sempre mais problemas, pensar nos outros como iguais, ampliando a nossa mente para abarcar a realidade de que todos buscam igualmente pela felicidade é confortante e libertador.


E retomo o termo que utilizei lá no início: a humanidade. Muitos pensam que a humanidade é ruim. É algo desastroso e egoísta. Mas podemos ver que todos nós nos ajudamos de alguma maneira, mesmo sem percebermos. O chão que pisamos, alguém construiu. A comida que comemos, alguém plantou, empacotou, vendeu e cozinhou. A profissão que temos só foi possível a partir de pessoas experientes que nos ensinaram. A pessoas têm a natureza de cooperação, no entanto, a maioria está inconsciente disso.


Dessa maneira, a cooperação e a mudança de um modo mental egoísta para altruísta que irá garantir a nossa sobrevivência.


Olhando para os outros


Além de filosofia, gostaria de propor uma visão de aplicar isso no seu cotidiano. Primeiro faça uma análise:


O quanto você tem beneficiado os outros?  Você tem saído da sua bolha de desejo de felicidade e tem percebido que as outras pessoas a desejam também?
Novamente, reforço que exercitar a mente e ação compassivas não é se anular, mas reconhecer que você tem as suas necessidades, mas todos os outros seres também as têm. É ampliar o cuidado, e isso inclui você mesmo.


Se está lendo esse texto, certamente tem a noção de que, se você está consciente da importância de olhar para o sofrimento dos outros, se torna uma responsabilidade “abraçar” aqueles que estão inconscientes e se afundam cada vez mais no sofrimento. Dessa forma, escrevi algumas sugestões de como beneficiar as pessoas a partir da ação e da motivação altruísta:


Como você pode beneficiar as pessoas que estão em alto sofrimento a partir dessa perspectiva:


1. Comece com a motivação: Pergunte-se o que você realmente quer fazer. Quer beneficiar a pessoa levando amor, tranquilidade e lucidez, ou quer reprimir e condenar o seu sofrimento? A motivação é a chave para analisarmos se vamos conseguir ajudar de maneira efetiva ou outros.


2. Escutando: a maioria das vezes, estamos tão enredados com nossas atividades que o que o outro fala entra por um ouvido e sai por outro. A pessoa não é genuinamente escutada e, por isso, se sente invalidada e desvalorizada. O simples ato de escutar com abertura e presença pode trazer mais clareza e conforto.


3. Acolhendo os seus pensamentos: O ato de demonstrar interesse vai além da escuta. Implica em dialogar sem julgamentos e ser gentil. É muito fácil cairmos em um papel de juízes, achando que sabemos o que é melhor para aquela pessoa. Se conversamos com a motivação de desejar realmente ajudar, validamos o conteúdo que ela traz, sem avaliações.


4. Contextualizando o seu sofrimento: Se uma pessoa está muito estressada, algum motivo tem. Seguindo os passos anteriores, vamos adiante verificando se é possível trazer algum nível de conforto. Se a pessoa está estressada, é a melhor resposta para algo desconfortável que ela encontrou. Por isso, ao perguntar o que aconteceu, você pode considerar que esse sofrimento tem razão e pode verbalizar: “É natural que você esteja estressada. Esse trabalho está muito difícil e você não está tendo tempo de descansar o suficiente”.


5. Reforçando o seu interesse: É o momento que você confirma que se importa com ela e que gostaria de vê-la feliz. Se trata de aceitar o momento de sofrimento, mas com o desejo sincero de que ela o supere. Um abraço ou um toque nessa etapa pode ser muito útil.


Vemos o quanto é importante o autoconhecimento para auxiliar os outros com uma motivação lúcida, já que podemos nos envolver com as nossas emoções fortes e piorar o quadro delas.  Cultivar uma mente que engloba as pessoas de igual para igual exige estudo, prática e uma contínua lembrança.


Esse com certeza é um tema delicado e que pode ser facilmente confundido. O meu objetivo não é construir uma oposição ao autocuidado e ao processo de auto investigação. No entanto, aqui, busquei tensionar a necessidade de ampliarmos esse olhar para os outros de maneira genuína, não apenas de maneira intelectual.


Recomendo o livro “A Revolução do Altruísmo”, de Matthieu Ricard. Ele com certeza tem muita experiência nesse tema e pode esclarecer com sabedoria qualquer dúvida que possa ter surgido.


Espero que as reflexões possam ser de algum benefício para você. Seguimos juntos nesse treinamento de amorosidade que é essencial para a nossa felicidade genuína.


Um grande abraço,


Daniel Danguy


Autor: Daniel Danguy
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