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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Daniel Danguy - "O relacionamento genuíno"



Seria possível afirmar que o humano é algo sólido, separado, estático? 

Como seria possível crescer, aprender e amar se isso fosse verdade?

Gosto muito da abordagem psicodramática e sistêmica da psicologia, que afirma que todo ser humano é um composto complexo das diversas relações sociais que vamos desenvolvendo ao longo da vida. Desde aquelas que foram produzindo ideais de pessoa antes mesmo de nascermos, até todos os seres que foram indiretas ou diretamente contribuindo para o nosso sentido de existir.

O que somos hoje, desde o corpo, quanto as diferentes identidades foram compostas pelos nossos parentes, amigos, professores e ídolos. Inclusive o nosso próprio corpo físico é fruto de outras pessoas, os nossos pais. À medida em que vamos nos abrindo para esse fato, vemos como a nossa vida e a nossa mente é dinâmica. Existe, assim, uma possibilidade de abertura, de modificação, de aceitação. 

A Teoria do Encontro de Jacob Levy Moreno, o criador do psicodrama, afirma que um momento transcendente e espiritualmente significativo na vida de um ser humano, é quando ele se conecta a outro ser humano com inteireza. É quando a dualidade “eu-tu” é transposta, e o senso de unidade floresce no Agora.
Esse encontro não é estático, mas está em constante movimento. Por exemplo, através da dança, das interações lúdicas, do teatro e nos almoços em família, essa epifania pode se manifestar.

Isso pode ser difícil de se vivenciar no atual contexto em que vivemos. As pessoas estão muito ocupadas buscando sustentar suas frágeis ideias de um eu independente e estável. O autocentramento evidentemente acaba distanciando as almas humanas de um contato genuíno.

Indo contra a maré

Você já parou para observar o seu comportamento quando está com as pessoas que ama? Qual é a sua postura, os seus pensamentos e atitudes? O que você costuma fazer para evitar que o Encontro aconteça?

Essas perguntas são disparadoras de uma transformação mental sobre o Encontro. Refletir sobre a interdependência dos seres também alivia a falsa crença de que se deve alcançar a felicidade sozinho. Também, abre as portas para ouvir atentamente as outras pessoas, o que pode aliviar o sofrimento. 

No entanto, isso deve ser sentido a partir da Presença e não apenas do próprio sistema de crenças. O Encontro, na verdade, nasce de um estado de espírito que ultrapassa o ego humano, onde são depositadas as expectativas, os anseios, o medo de ser julgado. E é por isso que o autoconhecimento é fundamental para estabelecermos relacionamentos dignos e saudáveis.

Cultivando relacionamentos genuínos

Convido vocês a se atentarem para a qualidade dos vínculos em suas vidas e a buscarem maneiras de se relacionar com presença e verdade. Assim, busque se perguntar, sem julgamentos, várias vezes ao longo dos dias:

O quão disponível estou para estar em contato verdadeiro com outro ser humano?

Quais são os pensamentos e atitudes que tenho quando estou diante de alguma pessoa, seja ela íntima ou não?

Que possamos nos desnudarmos mais para as pessoas. Assim como nós, todos buscam felicidade. A partir da Presença, à medida que nos abrimos para o verdadeiro relacionamento com outro ser humano, respeitando sua singularidade, podemos realmente exercitar a empatia. E, de quebra, ampliamos nosso mundo interior, nos tornando mais flexíveis, equânimes e pacíficos, assim como na famosa frase de Moreno sobre o Encontro:

Um Encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus; Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus.“

Um abraço amoroso,

Daniel Danguy.


Autor: Daniel Danguy
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