Ogun Holder - "Amor, perda e liberação" - Sementes das Estrelas

Ogun Holder – “Amor, perda e liberação”

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AMOR, PERDA E LIBERAÇÃO

Aprenda como o luto e a descolonização podem levar a uma espiritualidade mais aprofundada e a relacionamentos mais gratificantes.

O luto é a nossa resposta à perda. É natural, imprevisível, emocional, corporal e transformador. Pode ser avassalador ou suportável, paralisante ou libertador, e tudo que existe entre esses extremos.

Lidar com o luto é um exercício de aceitação, entrega e vulnerabilidade. Não é algo a ser curado, mas uma jornada de cura na qual os melhores mapas e guias jamais nos ajudarão a encontrar o destino. Não existe destino – apenas a jornada.

Nos primeiros anos após a morte da minha esposa, em 2015, eu achava que o luto era um adversário a ser compreendido e vencido, como um boxeador à minha frente se movendo de forma ágil pelo ringue, sempre se esquivando das minhas tentativas de desferir um golpe impactante – qualquer golpe, na verdade – e ultrapassando minhas defesas para me atacar de maneiras e em momentos que não conseguia prever.

Foi somente após ser derrubado e derrotado repetidamente, depois de chegar à exaustão física e emocional, depois de inúmeras tentativas fracassadas de me distrair e me anestesiar – com álcool, sexo, relacionamentos, compras e fuga espiritual e emocional – que finalmente me rendi ao luto. Foi só aí que o luto estendeu a mão para me ajudar a levantar e abriu os braços para me abraçar. Juntos, saímos do ringue, lado a lado, combatentes transformados em compatriotas. Eu não tinha entendido a lição.

A LIÇÃO DO LUTO: IMPERMANÊNCIA

Meu luto não se limitou à minha esposa. Nos dez anos seguintes, perdi duas tias, um tio, dois avós, um melhor amigo e meu pai. Todas essas mortes transformaram minha relação com os relacionamentos, principalmente os românticos e íntimos.

Eu me apaixonei novamente – mais de uma vez, na verdade – mas de uma maneira diferente. De início, pensei que simplesmente não me importava tanto com essas parceiras porque elas não eram minha esposa. Para ser sincero, algumas delas combinavam mais comigo que minha esposa – pelo menos com a pessoa em que eu havia me tornado. Mas ainda havia um distanciamento indefinido – uma parte de mim que eu reprimia inconscientemente. Eu acreditava que apenas não queria sentir uma dor tão profunda e intensa de novo, então não amei tão plenamente quanto antes.

Com o tempo, percebi o que realmente estava acontecendo: o luto estava me guiando para uma compreensão e uma prática mais ampliadas do desapego. É possível que conseguisse atingir isso sem toda a morte e luto – acredito que todos têm este potencial – mas, às vezes, nos recebemos um gatilho que nem sabíamos que precisávamos.

Atingimos e vivemos um estado de desapego quando aceitamos a impermanência; quando fazemos as pazes com a consciência de que podemos perder tudo que conhecemos e amamos, inclusive nossa própria vida. Buda disse: “Você só perde aquilo a que se apega”.

Podemos inferir das palavras dele que, quando deixamos de nos apegar a alguma coisa – quando não a possuímos mais, quando não ficamos mais fixados no resultado desejado – não sentimos a dor da perda quando essa coisa se for. Na teoria, parece fácil. Soa tanto inspirador quanto ambicioso, e, pra ser sincero, totalmente desumano e impossível. Às vezes me pergunto se Buda realmente tinha amigos depois de dizer coisas assim. (Provavelmente não). Mas a verdade é que é tudo isso. E, assim como o luto, trata-se mais de prática do que de perfeição.

O CAPITALISMO DENTRO DOS RELACIONAMENTOS

Enquanto passava pelo luto e aprofundava minhas práticas de mindfulness, também trabalhei para me descolonizar de traços internalizados e inconscientes de ideologias opressoras como o capitalismo, a supremacia branca e o patriarcado. Embora a influência do patriarcado na forma como eu lidava com relacionamentos íntimos fosse bastante óbvia, fiquei surpreso ao descobrir o quanto o capitalismo tardio também os impactava. Ele nos ensina que a vida é definida pela aquisição; que sempre há mais para ganhar, para acumular; que apenas ter o suficiente é considerado um fracasso; que nosso valor é diretamente proporcional ao quanto acumulamos, à rapidez com que acumulamos coisas e ao poder que podemos exercer com isso. Tudo mentira.

Percebi que via minhas parceiras através das lentes da posse e da transação, com uma linguagem aparentemente inocente e normalizada que refletia exatamente isso: esta é minha esposa/namorada/parceira – ela me pertence; ela deve a mim, e somente a mim, certas intimidades.

Os valores hierárquicos e transacionais do capitalismo continuavam se manifestando. Quem manda na relação? Deveria eu ter mais autoridade por ganhar mais dinheiro? Estou controlando quem faz o quê e em que proporção? Minha parceira é uma pessoa de alto valor (um parâmetro problemático nos relacionamentos/namoros nas redes sociais, geralmente centrado no sucesso financeiro)? O quanto meu senso de valor está atrelado à minha parceira/relacionamento?

É claro que é importante ter um relacionamento equitativo, com acordos que respeitem os desejos de todos os envolvidos, além de um método de prestação de contas e comunicação mais acolhedor do que hostil (eu gosto e uso o formato RADAR). Mas é diferente quando mantemos uma pontuação para exercer controle ou por medo de que o relacionamento termine. O medo pode nos levar a ceder ou reduzir nossa plenitude para nos encaixar em uma versão administrável e não ameaçadora.

AMOR SEM APEGO

Quando você segura alguém que ama nos braços enquanto essa pessoa dá seu último suspiro, a impermanência deixa de ser um conceito abstrato. Ela se torna uma realidade sentida em cada fibra do seu ser, tão profundamente entrelaçada com sua essência que você não sabe como compreendê-la. Com o tempo, porém, se você permitir que isso te influencie e te transforme, você passa a entender o quanto – e por que – você se apega aos outros: medo da solidão; medo de estar quebrado e não ser amado; medo de morrer sozinho; medo da morte em si.

Se você for paciente de verdade, poderá descobrir que não precisa se apegar com tanta força; que amar e ser amado nunca vai dissipar completamente esses medos. Talvez você aprenda a amar com um apego cada vez mais solto, até que tudo que reste seja o espaço para o amor florescer – ou murchar – contente em saber que ele, ou eles, nunca lhe pertenceram para sempre.

Amar sem apego não significa amar sem compromisso, compaixão, bondade ou vulnerabilidade. Amar sem apego nos leva à uma conexão sem controle; à autenticidade sem ansiedade; a sermos a plenitude de quem somos sem medo da rejeição; a saber que o amor não pode existir sem perda – e que tanto o amor quanto a perda abrem nossos corações mais do que jamais imaginamos. Amar sem apego é liberdade.

Autor/Canal: Ogun Holder
Fonte: https://www.spiritualityhealth.com/love-loss-liberation
Fonte secundária: https://eraoflight.com/2026/03/09/love-loss-and-liberation/
Tradução: Sementes das Estrelas / Mariana Spinosa

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