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quarta-feira, 18 de março de 2020

Impermanência: Uma aliada no caminho


A necessidade de controlar parece que se tornou algo natural em nossas vidas. Desejamos que os acontecimentos sejam exatamente como gostaríamos e, por vezes, isso se manifesta nas nossas relações, às quais são preenchidas pelas expectativas. O que torna esse funcionamento doloroso, é o fato de não reconhecermos esses padrões em nossa mente. Achamos que a vida é uma corrida contra o tempo, que o futuro é algo independente de nós ou que opiniões diferentes das minhas são coisas que podem tirar a paz.

Dia após dia, nos vemos em um automatismo que nos afasta da essência da vida. O cansaço e a falta de sentido nos convidam a reclamar e a enxergar o mundo como uma entidade separada de nós. Esquecemos que a nossa mente é plástica e que ela cria as nossas experiências. Esquecemos que a impermanência a tudo permeia.

Por isso, nos apegamos às coisas como elas se apresentam. Acreditamos que os acontecimentos estressantes no trabalho são muito importantes e que a raiva ou a frustração que surgem são fixas ou verdadeiras.

Porém, isso também pode gerar apego às sensações prazerosas nos momentos de compras exageradas ou no descuido do corpo, quando nos alimentamos mal. Aparentemente, a obtenção de bens materiais ou a ida a um festival de música, pode nos trazer felicidade duradoura, assim como achamos que ter uma dieta pouco saudável resultará em problemas, já que comer doces é realmente delicioso.

Justamente por buscarmos felicidade permanente em coisas impermanentes, é que sofremos. Curiosamente este é um dos ensinamentos básicos de Sidarta Gautama, o Buda. Segundo o budismo, ele foi uma pessoa que, através da própria experiência, compreendeu a natureza da mente e dos fenômenos, deixando caminhos objetivos para a cessação do sofrimento. 

Podemos enxergar a impermanência em todos os fenômenos da vida. O sol nasce e se põe todos os dias, a chuva eventualmente cai e depois é seca pelo sol. A terra se move lentamente e junto com isso pequenas mudanças, imperceptíveis para nós, ocorrem a nível planetário: geleiras que derretem, placas tectônicas que se movem, espécies que desaparecem e outras que surgem.

Por estarmos tão acostumados a ignorar a impermanência, buscamos meios de refutar isso: “ah, mas o sol nasce e se põe, mas sempre sei que ele voltará”. Isso é um equívoco pelo fato de que tudo no universo tem início e tem fim. Assim como nosso sistema solar se compôs progressivamente há bilhões de anos, a ciência já evidencia que o sol e outros corpos celestes também estão morrendo e um dia deixarão de existir.

Isso também acontece com o nosso corpo. Certo dia, nossos pais engravidaram de nós e, inicialmente, o embrião começava a se desenvolver no útero de nossa mãe. Essa célula foi se multiplicando e o corpo físico de uma nova pessoa se definia. O corpo pequenino depois do nascimento foi crescendo, suas células foram ficando mais complexas e, como em um piscar de olhos, pode ser que tenha se transformado em um corpo adulto com cabelos grisalhos e problemas de coluna. E, como tudo nessa realidade, o corpo está se modificando e em algum momento irá morrer. 

Com os nossos pensamentos e sentimentos não é diferente. A nível psicológico, cada ser humano tem uma construção que se embasa na cultura. Os pais, representantes desta, se encarregam em definir para o filho, o que é ser uma pessoa. No entanto, essa personalidade composta por diversos padrões de crenças e de pensamentos herdados também não é algo sólido. Isso pode ser observado nas mudanças que ocorrem ao longo do desenvolvimento humano. A criança, que gostava de brincar de boneca, enquanto adolescente começa a se interessar por paquerar e quando adulta, já estabelece novas preferências, às vezes totalmente diferentes das outras etapas do desenvolvimento. Sem falar das chamadas Experiências de Quase Morte (EQM) que hoje são muito pesquisadas e demonstram como uma pessoa pode mudar radicalmente sua vida. Portanto, o senso de eu é algo fluido, não algo que pode ser definido como permanente.

E o que tudo isso tem a ver com a nossa ansiedade que nos assombra? 

Achamos que o fato de planejarmos atividades e sustentarmos nos pensamentos o passo-a-passo realmente vai nos proteger da impermanência. Acreditamos que os pensamentos que se apresentam como imagens sólidas e, que muitas vezes são catastróficos, são reais. No entanto, a vida mostra que nada que se apresenta aos nossos sentidos é sólido ou verdadeiro. 

Então, para que nos estressarmos tanto?

Quantas vezes, você ruminou sobre um acontecimento futuro e depois de experienciá-lo, um suspiro de alívio permitiu você relaxar? E assim, depois surgiu a reflexão: “de que serviu pensar tanto sobre isso?”

A impermanência é um fato que, se contemplado, torna nossas vidas valiosas. Por exemplo, em uma discussão, quando temos muita raiva de alguém, o sentimento é tão intenso que esquecemos que aquela pessoa não viverá para sempre. Se isso for lembrado, todo o investimento em provar que você estava certo, se transformará em instantes. 

Também cuidaremos mais das nossas escolhas. Qual o valor que dou para o meu corpo e a atenção do que costumo consumir? Muito além do consumo material ou alimentício, isso também serve para as escolhas que nutrimos na nossa consciência. Quais os conteúdos que são plantados e regados em minha mente através de conversas, atitudes e pensamentos?

À medida em que vamos relembrando da verdade da impermanência, tudo pode ser mais leve. Sabendo que tudo que se expressa para nós tem um fim, talvez não achemos que aquela emoção angustiante é eterna, o que nos deixa sofrendo mais ainda. O sofrimento que surge da dor física e existencial pode se atenuar.

O desapego também é uma consequência da compreensão da mudança. Sabendo que nossas roupas um dia irão desbotar, que nossa pele fica enrugada e que um dia iremos morrer, a vaidade da autoproteção e do egoísmo diminuirão. E isso ajudará a sermos mais humanos e a termos relacionamentos mais genuínos, compreendendo que a maneira como o outro se comporta e sua aparência física, também irão se dissolver com o tempo. 

A meditação é um caminho que nos convida a olharmos para essa verdade. Experimente sentar e se colocar em uma postura interior de testemunha. Veja como os pensamentos surgem e desaparecem na consciência. Com a prática de observar os movimentos mentais sem envolvimento e da lembrança contínua de que as coisas são instáveis, ocorre um florescimento de uma dimensão interior que é imutável e permanente. No entanto, as palavras são muito mesquinhas para descrever isso. Convido você a experimentar.

Um abraço de ternura,

Daniel Danguy

Esse texto foi inspirado nos ensinamentos budistas do mestre Chagdud Tulku Rinpoche.


Autor: Daniel Danguy
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