
A resposta rápida é que a mente egóica deixa de existir. Em certo nível, podemos dizer que a mente egóica nunca existiu. Era uma ilusão. A mente egóica acredita na existência de um outro “você” – um “eu” – que interage com o mundo, com quem as coisas acontecem e que faz escolhas. No estado desperto, este “eu” desaparece. Ele não passava de uma criação da imaginação do ego. Para quem estiver se perguntando o que acontece com a mente egóica – uma pergunta que não poderia surgir de uma mente desperta – quando você opera sob a crença de que possui uma mente egóica, de que tem pensamentos, ações e escolhas que são seus, de que coisas acontecem com você e de que está tentando chegar a este lugar que imagina ser a iluminação (seja qual for a imagem que tenha disso, mas onde você não se encontra agora), oferecerei uma resposta que utiliza um modelo.
Não canso de repetir que quaisquer palavras que forem usadas aqui para explicar alguma coisa não são a verdade, a qual não pode ser dita. Palavras apenas apontam. Não olhe para as palavras, mas para aquilo para o qual elas apontam. O “você” que está buscando jamais encontrará a verdade. Somente com o desaparecimento desse “você” é que a verdade se torna evidente, embora não possa ser compartilhada. É só isso que existe. No estado desperto, tudo que resta é a verdade. É só isso que existe. A mente egóica tenta encontrar um caminho para algum outro lugar. A mente desperta está lá, agora e sempre. Não há um lugar a encontrar, nem nada a fazer.
A MENTE FUNCIONAL E A MENTE PENSANTE
O modelo que mencionei é usado por Ramesh Balsekar. Ele fala sobre ter duas mentes, que ele chama de mente funcional e mente pensante. Encorajo você a relaxar seus pensamentos e ideias sobre o que é deixar essas palavras te envolverem e ver o que acontece. Aqui vai uma descrição de como a mente funcional opera: ela reage a tudo que está presente no momento e “trabalha” com essas coisas sem nenhum objetivo em mente. Não tenta resolver problemas, atingir metas, conseguir coisas ou obter qualquer resultado. Não se preocupa com o porquê de algo estar acontecendo, não assume responsabilidade pela criação do que está presente, por trazer o presente à tona ou por ter feito escolhas ruins (ou boas) no passado. Ela apenas percebe o que está no aqui e agora. A mente funcional brinca com o que está presente. É reativa. Fica totalmente perdida e envolvida nesta atividade. É provável que você se identifique com momentos de tal experiência. Talvez você leia um livro e perca contato com tudo ao seu redor. Pode acabar perdendo a noção do tempo. Isso pode acontecer com qualquer atividade: brincar ou ouvir música, conversar, fazer jardinagem, dançar, dirigir ou jogar xadrez. O tempo não existe para a mente funcional. Existe apenas o fazer. Pode ser resolvendo um problema de matemática ou explorando ideias filosóficas. Novamente, não há destino; apenas o fazer. Sem distrações. É a única opção. Isso é tudo que a mente funcional faz.
Nenhuma atividade precisa ficar fora do envolvimento da mente funcional, porém todas podem ser invadidas pela mente pensante. A mente pensante intervém quando a mente funcional está reagindo e faz perguntas como: “Isso realmente é verdade?”, “Isso realmente é valioso?”, “Vale a pena fazer isso, vale a pena gastar meu tempo com isso?”, “Isso vai pagar o aluguel?”, “O que isso me traz?”. Está cheia de perguntas e dúvidas. É fortemente influenciada pelo ontem e pelo amanhã, que costumam ter precedência sobre o que está sendo apresentado agora. Este é o reino da mente egóica. A mente desperta simplesmente não funciona. Não pensa.
A mente pensante critica a mente funcional. Teme que o despertar seja impraticável e que não seja possível funcionar no mundo real. Na verdade, a mente funcional é muito mais produtiva e envolvida com o mundo do que a mente pensante, que acredita ter controle e escolha. Isso não acontece. A mente pensante é, portanto, incapaz de reagir e lidar com a vida de forma eficaz porque não vê as coisas como elas são, e sim como deseja que sejam. As ações dela são embotadas porque ela age apenas a partir da programação que possui, por isso não consegue reagir às novidades que a vida sempre apresenta. Por acreditar que pode mudar o que é, falta-lhe flexibilidade para reagir ao que é. A mente funcional se envolve totalmente com o agora, é sensível a cada nuance, reagindo ao que realmente está presente. Pois não está tentando entender as coisas, apenas reagindo, guiada pelo conhecimento inato da Totalidade, do Divino, de Deus. É a mente funcional, não a pensante, que lida com o mundo real e é mais produtiva e eficiente. A mente pensante sente-se separada e amedrontada; está em guerra com o presente, em vez de se incorporar nele. Quando a vida se movimenta e muda, o que sempre acontece, a mente funcional lê e reage a ela. A mente pensante sempre tenta orientar as coisas de maneira predeterminada e não consegue ler as mudanças. A mente funcional não raciocina; ela atua. Usa o passado apenas para adquirir habilidades práticas que foram aprendidas e que podem ajudar na situação atual. Não julga nem avalia com base em experiências do passado.
Se um perigo físico imediato aparece, é a mente funcional que entra em ação. A mente pensante é bastante previsível, pois opera com base na programação que possui. A mente funcional é totalmente imprevisível, pois reage sem pensar ao momento, que está em constante mudança. A mente pensante não está apta às ações rápidas que uma emergência exige, pois só consegue vasculhar memórias de situações semelhantes – que provavelmente nem existem – e, então, seguir o curso habitual de ponderar as possíveis respostas. Enquanto isso, a bola já bateu no rosto ou o carro já atropelou o cachorro. A mente funcional age de forma mais simples e rápida. Mais tarde, a mente pensante pode até se surpreender com a rapidez e destemor com os quais o corpo e a mente reagiram. A mente funcional não descansa sobre os louros conquistados. Ela não tem louros. Ela simplesmente redireciona energia para o que está presente no agora. Alguns podem dizer que a mente funcional age mais por paixão do que por razão. Não vejo problema nisso. Outro termo que poderia descrever a mente funcional é “instintiva”. Certamente, reagir ao perigo é algo mais instintivo do que passional. Também não diríamos que reagir à uma picada de abelha é paixão em ação. Neste caso, a mente funcional percebe a sensação, mantém-se totalmente presente nela e abandona qualquer pensamento sobre certo ou errado, sobre a causa do evento, de preocupações com futuras picadas ou complicações decorrentes do incidente, bem como qualquer sentimento de culpa ou atribuição de culpa. Ela apenas vivencia o que está ali até que aquilo não esteja mais presente ou se transforme em outra coisa – digamos, uma reação alérgica. Ela permanecerá presente diante dessa nova forma. Qualquer medo que apareça será notado, mas não guardado. A mente funcional não se preocupa.
Animais não possuem mente pensante. Se um cervo percebe a aproximação de um predador em potencial enquanto pasta, ele corre imediatamente para um lugar seguro. Quando a ameaça não está mais presente, continua pastando ou fazendo qualquer outra atividade que o presente lhe ofereça. Ele reage ao momento. Quando não há nenhum perigo no momento, não existe perigo na consciência dele. Ele não se preocupa com futuros ataques. Não teme a morte, embora reaja instintivamente no momento para fazer o que for necessário para viver. Sem ameaças; sem preocupações. Ele aprendeu por meio da experiência quem pode ser um predador, então essas memórias aparecem para direcionar a segurança dele, mas, caso contrário, não estão presentes. Não existe senso de identidade. Não existe mente pensante. Não há preocupação, apenas reação. Não há preocupação com a comida do próximo inverno, apenas a intenção de encher a barriga agora.
O DESPERTAR E O MOMENTO PRESENTE
Voltando ao eu desperto. É semelhante à mente animal. Não existe preocupação com o futuro. Trata apenas do momento presente. Não existe senso de identidade. O corpo/mente é apenas um veículo para percorrer o agora da vida através da qual a Divindade atua. A mente funcional desperta observa e participa desta atividade sem se confundir com o corpo. Não existe medo da morte. Este é o reino da mente pensante. A mente funcional não reconhece que há algum trabalho a ser feito, alguma escolha a ser feita, nem algo a ser aprendido. Nem sequer pensa em fazer parte da Totalidade que é Deus, que é a Vida. A capacidade de pensamento não está presente. Tudo é conhecido sem palavras; existe apenas a resposta intuitiva ao que a Vida apresenta. Ela desempenha inconscientemente o papel dela, que não pode ser mal interpretado.
O potencial do que vai ser realizado pela mente funcional vai infinitamente além do que a mente pensante consegue fazer, mas não há ninguém para reivindicar o mérito de qualquer realização. Na Unidade, não existe uma parte separada que possa – ou que de fato vá – assumir o crédito. Tudo está conectado. Existe apenas a alegria de realizar a ação. A Divindade da qual você faz parte não possui identidade pessoal. Não existe senso de controle, de autoria ou de responsabilidade. Não existe julgamento de valor, nem noção de certo e errado. Nada é previsível; existe apenas a perfeição Divina. É apenas um jogo. Divirta-se jogando!
Bom Agora
Sanhia/Espírito
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Canal: Michael Hersey
Fonte primária: Channels Without Borders
Fonte secundária: Era of Light
Tradução: Sementes das Estrelas / Mariana Spinosa
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